sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Micro explosões sociais!!! (Capítulo 5)

-Fora! Fora! Fora! Traidor! Fora! – Gritava a multidão ensandecida empurrando o careca senhor quarentão pelos corredores da Escola de Tecnologia. O burburinho se arrastava em direção ao Grande Auditório. –Acha que vai poder se explicar?! – Gritava um professor corpulento em meio aos acotovelamentos. A alunada pendurada nas escadas e nos parapeitos do primeiro andar gritavam e atiravam bolas de papéis, cestos de lixo e pratos sujos de merenda no assustado e pálido Diretor que passava embaixo.





As aulas foram interrompidas. O que havia acontecido era grave. De surpresa, aquele diretor oficializou que a Escola não mais ofereceria cursos profissionalizantes. Seria uma mera escola de ensino médio. O ensino técnico agora seria somente pago e, assim, mais distante do jovem pobre. Aquele famigerado havia acatado, sem dialogar antes com a comunidade, uma decisão provisória do Governo. O legislativo estava para realizar a última votação daquela lei e, se ninguém fizesse nada, a última plenária também aprovaria aquele absurdo.


Do meio da balburdia eu observava tudo curioso e espantado. Mais surpreso ainda pela certeza de já me lembrar daquilo tudo antes que realmente acontecesse. Como eu poderia me lembrar do que ainda não havia acontecido? Esta foi mais uma razão pela qual resolvi escrever tudo que acontecesse. Seria uma forma de procurar entender o que estava se passando.

domingo, 20 de julho de 2008

Experimento (Capítulo 5)

No dia em que tudo começou, acordei no meio do nada. Nada mesmo, nem em cima nem embaixo de nada, nem de mim mesmo. Quando apurei meus olhos, percebi que eles enchergavam em todas as direções ao mesmo tempo. Estrelas em breu se fizeram perceber lentamente. Ao longe, uma esfera azul-esverdeada saía da penumbra com que encobria um gigantesco Sol amarelo. Foi aí que percebi onde estava e faltou-me fôlego. Talvez tenha sido psicológico, porque depois senti, surpreso, que não precisava respirar. Não sentia o ar nem o vácuo, nem frio nem calor. Somente medo.

Minha vontade era me recolher àquele pálido ponto esverdeado que se afastava rapidamente. Como se meu desejo fosse um propulsor, ele me atirou naquela estranha atmosfera tal qual um bólido que não queima. Na aproximação, percebi uma esfera prateada cheia de luzes que cruzava aqueles verdes céus no sentido contrário, deixando um rastro de vapor em sua trajetória.

Em mergulho, via uma superfície acidentada serpenteada por rios, mares e montanhas. Em seguida distinguia florestas e, em meio a elas, clareiras cheias de luzes e minúsculas formas retas. Distinguindo uma cidade, pouso espantado, mas acolhido, próximo a uma estranha construção.
Um humanóide de compleição esbelta e pele acinzentada se aproxima do prédio. O estranho se equilibra em cima de uma base metálica plana que flutua, reduzindo tanto a velocidade quanto a altitude em direção a onde eu estava.

O crepúsculo extingue-se progressivamente desfraldando um espetáculo de estrelas no céu daquele planeta, num belo anoitecer com três luas ascendendo no rubro horizonte.

O planador aterriza num magnífico jardim de rosas multicores fluorescentes. Seu passageiro salta daquele objeto que mais parecia um disco de um metro de diâmetro e poucos centímetros de espessura, repleto de pequenas luzes coloridas. Aquilo devia servir para transporte individual rápido.

Digo “Olá!”, mas o humanóide caminha sem dar sinais de perceber a minha presença. Segue a passos síncronos até um cilindro energético esverdeado em que raios luminosos percorrem seu corpo e uma voz robótica exclama, numa língua que desconheço, mas cuja idéia me chega à mente de alguma forma:

- ACESSO PERMITIDO! BEM VINDO AO LAR, SENHOR SMELSON*.

A parede cinzenta à sua frente assume a aparência de um circulo azul metálico e o ruivo e alto senhor atravessa-o como se o obstáculo não existisse. Atravesso-a também e ninguém me percebe. Saúda com uma boa noite o trio familiar que o aguardava na confortável sala. É uma sala de estar escurecida onde se divisam silhuetas de pessoas e de objetos.

- Veja, pai. - Diz um garoto apontando para uma bola prateada se movendo entre eles no simulado espaço estrelado daquela sala. - A Cosmos II acabou de decolar rumo à zona segura de experimentação.

- Sim Frewly*. À velocidade da Luz, a nave deverá chegar lá em dez minutos.

- Torço para que tudo dê certo. - Diz uma senhora ao acionar o artefato luminoso que se posiciona no centro do grupo em forma de mesa. Emergem de seu interior cilindros transparentes que provocam uma inundação aromática e deliciosa em toda a sala.

Os hologramas do espaço sideral somem aos poucos e uma luminosidade amarelada invade o ambiente.

- O Jantar de hoje é um especial estráfio[1] produzido no planeta Astart* do sistema estelar Relim*. Diz a elegante senhora.

- Parabéns querida! Você realmente adivinhou o que nós queríamos comer.

- Obrigada meu bem. Meu instinto maternal sempre acerta. – Gaba-se.

- Gentileza sua com a mamãe, Pai. Mesmo que o instinto dela falhasse, ela ainda poderia contar com a comunicação psíquica direta.

Todos riem da observação de Frewly. Menos eu, incógnito e meio por fora.

Ah! Já ia me esquecendo. Está na hora do inédito show ao vivo dos Rêmilis*. Vamos participar antes do grande momento da Cosmos II. - Fala o patriarca enquanto aciona psiquicamente a projeção holográfica que faz surgir ao redor do grupo os artistas de um esdrúxulo espetáculo de dança, som e efeitos que se realizava a anos-luz de distância. - Ainda bem que nosso comunicador taquiônico está funcionando devidamente. Só assim podemos participar ao vivo de todos os programas da galáxia. Os três juntam-se aos avatares holográficos e todos dançam e cantam alegremente. Olham-se ternamente, riem, pulam e brincam.

- Chegou o momento! – Diz o pai quando percebe que o ambiente mudava. Novamente estávamos inundados de espaço sideral. A prateada esfera diminui sua velocidade relativa às estrelas, planetas e aglomerados estrelares que formavam o fundo da cena. Ela estabiliza na órbita de um planeta terroso e seu satélite, ambos sem atmosfera e cheios de crateras. Quatro quartos de esfera oca se desprendem ordenadamente e param eqüidistantes da nova esfera agora a descoberto.

Os três kelpscianos cinzentos se abraçam e observam apreensivos.

- Conforme as energias envolvidas no experimento, diz Smelson, a zona segura possibilitará que, em caso de algo sair errado, nem mesmo as areias do Planeta Drynner* serão sopradas.

Os quartos de esfera inundam o espaço entre elas com uma azulada luz. A esfera no centro começa a ficar transparente. Transitando entre a translucidez e a opacidade, começa a encolher aceleradamente até sumir. De repente, os quartos de esfera se amassam em direção ao núcleo como folhas de papel alumínio e a face do planeta Drynner, voltada para o experimento, se esfacela progressivamente.


A família se abraça mais forte. Sabem que alguma coisa saiu errada. Os pedaços montanhosos do planeta voam sugados em direção ao invisível, deixando à mostra o luminoso núcleo de magma planetário. Enquanto o moribundo planeta e sua lua são engolidos por aquele nada, a imagem aumenta como que dele se aproximasse. Esta imagem segue como uma sonda filmadora em meio aos novos asteróides igualmente sugados até que a mesma se apaga. A sala da família kelpsciana retorna à fria luz.

Eu me desespero. Quero saber o que está acontecendo. Minha vontade lança-me de súbito na órbita daquele planeta. Vejo distante um disforme anel de luzes multicores que se expande aceleradamente engolindo tudo ao seu caminho com seu centro escuro e vindo em minha direção. Olho para o planeta abaixo de mim. Inúmeras famílias para um trágico destino. A mais distante das três luas começa a se despedaçar.

Lanço-me novamente em direção àquela cidade, à casa. Eles estão abraçados, mas para minha surpresa parecem tranqüilos, resignados. Depois não mais se abraçam. Apenas se dão as mãos e fecham placidamente os olhos. O patriarca apenas diz: -Nos reencontraremos em breve.

Sinto que tudo é muito rápido, mas talvez minha estressada aceleração mental me fizesse ver tudo em câmera lenta. Assisto seus rostos se deformarem até sangue amarelo e ossos marrons serem expostos. A casa e seus objetos se deformam igualmente. As cidades, rios, florestas e montanhas se misturam num caos destruidor e eu fujo dali desesperadamente.

Ainda volto meu olhar para a região cataclísmica. Fico surpreso por ver que havia me distânciado tantos milênios luz em tão pouco tempo. Vejo estarrecido a imensa nebulosa com suas três supernovas a serem lentamente devoradas por aquele buraco negro.Acordo ofegante, suado e assustado. Era muito real para ter sido apenas um pesadelo. Suspiro de alívio.









*[1] Nota do Franzé – Algumas palavras me chegaram incompreensíveis à mente. Talvez porque a comunicação se dê por idéias e não por fonemas, e como eu não possuo idéias correspondentes a estas palavras, elas não equivalem a nenhum som que conheço. Assim, tomei a liberdade em substituir estes sons esquisitos por palavras que de alguma forma se pareçam com eles.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Sociomicrocosmacro



Ao olhar pras artimanhas no Mundo,
O homem e as máquinas que ele faz,
Com as lentes do meu neurar fecundo
Percebo a humanidade mais e mais.

Conecto-me agora às ciberredes,
Desafiando espaços sociais,
Vejo que o virtual unir dos homens,
Democracia milenar nos traz.

Mas pra que direta democracia,
Se a representativa nos apraz?
Questiona quem o Mundo gerencia.

Mas a maioria acorda tenáz
E os microcósmos de cada homem
Explodem os Big Bangs sociais.

Prólogo: A Combi preta ou como a História do Big Bang Microcósmico chegou até nós.


"A propaganda é para a democracia burguesa o que o cassetete é para o estado totalitário".(Noam Chomsky)
Quando a Mídia não detém as novas idéias, o porrete volta à cena?

Tem coisas que a gente pensa que nunca vai acontecer conosco ou com alguém
conhecido.

Naquela manhã acordei cedo, tomei banho e café rápidos e joguei a mochila nas costas. Fiz a caminhada habitual em direção ao Centro Federal de Educação Tecnológica do Ceará, CEFET-CE. Odeio acordar cedo, mas a grana de bolsista de laboratório de informática, apesar de mixuruca, era um grande motivador a quem não tinha outra opção para sair da típica "liseira" estudantil. Aquele era o único e ingrato horário que me ofereceram e tive que aceitar. Geralmente chego atrasado de propósito pra poder dormir um pouco mais e também para aproveitar o fato de que ninguém usa mesmo o laboratório às 7h da manhã em ponto. Talvez porque a maioria também odeie acordar cedo mesmo. Mas neste dia havia outro motivador: meu amigo Franzé me ligou ansioso na noite anterior querendo urgentemente me entregar um material que, segundo ele, não poderia ficar nas mãos de uma única pessoa. Não teceu detalhes, agendou comigo às 6:30 no laboratório e desligou.

Passei a noite preocupado. Devia ser algo grave mesmo, pois meu amigo nunca telefonava. Tinha o hábito de falar sempre pessoalmente. E agendar tão cedo assim...? Definitivamente, era grave! Não era típico de um astrônomo amador que geralmente tem hábitos noturnos querer resolver alguma coisa tão cedo.

Caminhando introspectivo em frente à Escola de Cinema da Universidade Federal, resolvi cortar caminho por dentro daquele Campus enquanto imaginava o que meu amigo desejava me entregar. Quando cruzei o portão em frente ao bloco da Psicologia, entrando na deserta rua onde mora o humorista Falcão, palpitei de alegria ao ver o simpático e moreno rosto do Franzé que cruzava a esquina do Bar Cantinho Acadêmico.

Ele pára, me sorri, e volta o rosto e a mão direita pra dentro da mochila, de onde retira um CD-ROM. Foi quando uma combi preta freia do seu lado e dois marmanjos de farda verde-oliva saltam da porta semi-aberta onde vi de relance o letreiro: CETEX. O reflexo que tive foi me esconder rapidamente num recuo de muro enquanto o Franzé só teve tempo de gritar: - CONJUNÇÃO!!! - enquanto quebrava o CD, cortando feio as mãos antes de ser arrastado pela camisa pra dentro daquela combi de placa branca que cantou pneu em disparada pela Avenida 13 de maio.

Agora meu palpitar era de medo! Passei pelos cacos ensangüentados do CD espalhados pelo asfalto e corri até a esquina pra me certificar de que o veículo havia mesmo sumido. Respirei aliviado e resolvi fazer o resto do caminho até o Cefet-Ce contornando a praça da Gentilândia para entrar no Centro Tecnológico por trás, pela rua do Estádio Presidente Vargas. Assim, por precaução, despistava um pouco enquanto meditava sobre o ocorrido através de uma caminhada mais longa.

Será que eles virão atrás de mim? Quando agarraram o meu amigo, não deixei que me vissem de forma alguma. Será que me associariam de alguma forma ao Franzé? Achava pouco provável. Mantinha tanto contato com ele quanto a maioria dos outros colegas de faculdade. Mas e aquela única ligação telefônica? Aliviado, lembrei dos bips característicos das unidades de cartão telefônico sendo subtraídas. Um grampo num orelhão escolhido a esmo era quase impensável. Nisto o Franzé fora cuidadoso. Mas porque pegaram o cara? O que fariam com ele? Minha cabeça fervilhava enquanto entrava no CEFET.

A primeira ação que fiz ao entrar no laboratório foi pesquisar no Google a sigla CETEX cruzada com a palavra Exército. Mas o que o "Centro Integrado de Telemática do Exército" poderia querer...? E o que o Franzé quis dizer com a palavra "conjunção"? A palavra me lembrou a única vez em que assistimos juntos uma conjunção de planetas com a Lua no céu. Era algum dia de março de 1996 quando nos reunimos na casa dos pais do professor Omar e fizemos várias astrofotografias da triangulação formada pela Lua, Vênus e por Saturno. Foi neste contexto que aconteceu um fato inusitado e sem explicação física plausível, mas como todos do grupo de astronomia éramos muito céticos, deixamos o assunto pra lá.

O Franzé é o tipo de pessoa do qual se conhece mais as idéias que a vida pessoal. A sua idéia de que Universos se recriam constantemente até mesmo dentro de nós, por exemplo, eu tento entender até hoje. Ele veio sozinho de São Paulo há alguns meses e freqüentava o CEFET como aluno especial até que conseguisse a necessária transferência. Já com relação às idéias, meus amigos que discutiam Filosofia e Física no meio acadêmico o tinham como o mais marcantemente lógico, racional, cético e humano de todos.

O inexplicável era o fato de que, na primeira vez em que o levei ao Observatório e o apresentei ao professor Omar, este ao lhe fazer um convite para participar das astrofotografias da dita conjunção, simplesmente impediu que o professor lhe dissesse o endereço. Para espanto dos presentes, descreveu em detalhes o lugar como se já estivesse ido lá.

Enquanto buscava nexo entre o rapto e a conjunção, minha caixa de correio eletrônico sinalizou uma nova mensagem: Era um e-mail do Franzé! Abri rápido. Continha apenas um anexo e uma frase: "tanto ascende quanto declina". Clicando no anexo, surgiu uma tela requisitando uma senha. Só haveria um jeito de ler a mensagem criptografada: encontrar um nexo entre a conjunção e aquela frase esquisita. Quem ascende e declina são os astros, pensei. Tentei então as combinações possíveis de Lua, Vênus e Saturno, mas nada. Pensei, pensei... E se fosse a seqüência numérica da ascensão reta e da declinação da conjunção planetária? Lembrei que tinha o anuário do Mourão na mochila e após consultar, digitei: 22 37 56 01 32 56. - Eureca!!! - Então, ofegante, consegui ler a mensagem:

Prezado Moura,

Programei no servidor de e-mail uma rotina que dispararia esta mensagem caso eu não a reagendasse hoje às 7h da manhã. Se você recebeu esta mensagem, é porque a informação que precisa ser divulgada urgentemente está sob o risco de ser silenciada e decidi confiar a você o destino da mesma.

Por precaução, a mesma rotina que enviou esta mensagem formatou fisicamente o servidor "Benfica". Sugiro que faça o mesmo com sua máquina. Depois vá até o banheiro masculino ao lado da escada do corredor central. Sobre o segundo Box, há um alçapão que dá acesso ao forro do telhado. Na base da terceira coluna da direita há um jornal velho. Dentro dele há uma caixa de CD-ROM. Pegue, proteja e publique.

Atensiosamente.

Francisco José

Estupefato e ansioso, fiz o rastreamento dos caminhos por onde aquele e-mail tinha passado. Aliviado, vi que apenas o servidor de e-mails Benfica e a minha máquina estavam envolvidos. Pinguei no IP 200.17.33.1 e verifiquei que realmente o Benfica estava fora de combate, mas não confiava em formatação. Qualquer ferramenta de recuperação de disco é capaz de restaurar dados. Contra isto, só havia um jeito. Corri até o Diretório dos Estudantes e, como eu era diretor e tinha a chave, entrei e peguei o grande imã de caixa de som usado pra segurar uma pilha de cartazes. Corri ao laboratório e passei a belezinha nos Discos MAgnéticos do servidor e da minha máquina. Pronto! Dane-se a dor de cabeça que terei depois para arrumar a bagunça.

Chegaram os primeiros usuários do laboratório. Entre reclamos de servidor fora do ar, agüentei minha curiosidade até que meu horário de trabalho terminasse. Afinal, se ele realmente estivesse lá, o local mais seguro para o CD era o forro mesmo. Até que chegou o outro bolsista e eu saí quase correndo.

Inspecionei o banheiro. Havia somente um aluno branquinho lavando as mãos. Faço de conta que mijo e, quando o cara sai, fecho a porta principal do banheiro e subo no forro. Realmente estava lá. Desço um pouco sujo de poeira, mas com o CD já dentro da calça. Fui direto pra casa.

Passei o resto do dia lendo o conteúdo do CD. Eram centenas de páginas onde o Franzé relatava uma história intrigante que dizia respeito ao futuro com revelações que me arrepiavam a espinha. Por precaução, fiz cópias do CD-ROM e o escondi em lugares estratégicos. Programei também uma rotina de mensagem criptografada a partir de meu sitio pessoal. Agora estava pensando no que fazer para ter meu amigo de volta. Abriria um B.O. de pessoas desaparecidas? Não, isso seria me expor. Comunicar a família dele? Como achar sua família? Talvez fosse possível se pesquisasse na sua ficha de transferência. Amanhã pensaria em como ver a dita ficha.

No dia seguinte, para minha surpresa, o Franzé entra no laboratório como se nada tivesse acontecido.

-Cara, pra onde te levaram ontem? – pergunto-lhe quase cochichando.

-Levaram? Que estória é essa?

-Uns caras numa combi preta!

-Ontem passei o dia em casa cuidando do corte da minha mão direita que machuquei cortando uma laranja.

-E o CD?

-Que CD?

-Deixa pra lá agora. Depois converso na calma e à sós com você.

O Franzé deu de ombros com uma sinceridade que me intrigou.
Por vários dias tentei lembrá-lo do acontecido e nada. Até que recebi uma notícia de que ele havia conseguido uma transferência para o Rio de Janeiro e se foi. Três meses depois ele me enviou um triste e-mail dizendo que sofria de uma doença terminal. Morreu quase um ano depois.

Hoje faz dez anos que atualizo diariamente uma rotina de e-mail automático criptografado e guardo aquele CD. Tenho medo de que, ao tentar publicá-lo, uma combi preta me pare na rua.

O problema é que a História escrita pelo Franzé está cada vez mais se confirmando diariamente. Isto tem feito meu senso de dever tornar-se superior à minha covardia.

Bem, se você está lendo isto agora, é porque tomei coragem. Por cautela, para sondar se ainda há perigo, resolvi publicar um a um os capítulos do CD no Blog http://bigbangmicrocosmico.blogspot.com/ que divulgo com os amigos. Aos verde-olivas aviso-lhes que todo o conteúdo do CD será automaticamente disseminado na Internet se alguma combi preta nos parar na rua.

Microcosmacro

A olhar num microscópio de fundo,
As moléculas, átomos, os quarks...
Com as lentes do meu neurar fecundo
Mergulho no infimo mais e mais.

Empunho agora um telescópio
Desafiando espaços-temporais
E no fim do Universo vejo a Terra
Na curva luz, de bilênios atraz.

Acoplo lentes do neurar fecundo
Submerjo do macro mais e mais
Em raios não curváveis como a luz.

Assim, no telescópio e microscópio,
No macro vejo-me dentro de um átomo,
No micro outro universo me reluz.